Novo diretor do Setor da Catequese em entrevista

O novo diretor do Setor da Catequese do Patriarcado de Lisboa reconhece que, face à ‘debandada dos jovens’, faz falta olhar para a catequese como “uma caminhada de crescimento de vida cristã” e afirma que “nas paróquias onde há propostas, há jovens”. Ao Jornal VOZ DA VERDADE, o padre Tiago Neto sublinha que “entender a catequese segundo o critério familiar pressupõe não só integrar as famílias na catequese paroquial mas tornar a família num lugar de Igreja”.

Como se apresenta hoje o Setor da Catequese do Patriarcado de Lisboa?

O sector tem uma articulação direta com as paróquias e está ao serviço da catequese que acontece pela diocese, com mais de 7000 catequistas. A equipa diocesana tem como missão fundamental a animação daquilo que é a missão dos catequistas, sobretudo a nível da formação. Temos várias áreas de intervenção, a nível do sector.

Temos o ‘Despertar da Fé’, dirigido a crianças entre os 4 a 6 anos de idade, que é um projeto que tem sido desenvolvido na diocese pelo sector da catequese e pela Escola Superior de Educadores de Infância Maria Ulrich, em colaboração com os centros sociais e paroquiais e outras instituições, sobretudo para educadores e algumas paróquias, no sentido de dar uma primeira notícia da fé à criança. Depois, temos o que diz respeito à ‘Catequese da Infância’, compreendido entre o 1º e 6º ano. Temos também a ‘Catequese da Adolescência’, que significa uma parte importante de formação de catequistas, que podem ser formações por catecismos ou temáticas, com temas mais abrangentes, de modo a ajudar os catequistas a terem critérios e uma fé justificada para poderem trabalhar e dialogar com os adolescentes.

Existe alguma proposta diocesana para o catecumenado?

Estamos a iniciar uma equipa de catecumenado para a diocese, sobretudo como espaço de partilha e formação dos catequistas que, de alguma maneira, estão envolvidos no catecumenado das crianças e adultos. A ideia é haver uma partilha de experiências, em primeiro lugar, porque notamos que a diversidade de práticas é ampla. Trata-se não de um grupo que defina ‘o que deve ser’ mas um grupo de partilha de experiências para apoiar as paróquias e os catequistas e, a partir daí, elaborar algumas pistas de trabalho para as pessoas se poderem orientar, nomeadamente tendo em conta a relação com os catecismos existentes, e no caso dos adultos, alguns subsídios ou catecismos que possam ser sugeridos.

Além desta partilha de experiências, propomo-nos a orientar um encontro para catequistas de catecúmenos brevemente. A ideia é ter, pelo menos, um encontro anual.

Como está organizada a formação dos catequistas?

O sector tem uma formação dirigida a todos os catequistas que não limita a formação oferecida pelas paróquias. Para a formação do catequista na diocese temos três níveis: o primeiro diz respeito à formação inicial, normalmente com o chamado ‘Curso de iniciação’ que é habitualmente dinamizado pelas equipas vicariais; um segundo nível diz respeito ao ‘Curso geral’, que é um curso de maior aprofundamento, que tende a dar ao catequista ferramentas várias interdisciplinares; por último, temos a ‘Formação contínua’, ao longo do ano, aberta a todos os catequistas. Neste contexto, temos uma equipa diocesana, pequena, que dinamiza a formação, curso geral e outras atividades mas o objetivo é que em cada vigararia haja uma equipa de catequese que colabora com o departamento, tendo a sua própria estrutura de trabalho, mas sempre em ligação connosco. A catequese e a vida cristã acontecem no terreno. Por isso, mais do que ter grandes estruturas, o importante é dinamizar aquilo que são as estruturas locais.

Existem paróquias que adaptaram o habitual itinerário da catequese para que os sacramentos da iniciação cristã sejam recebidos mais cedo. Isso contribui para uma iniciação cristã mais sólida?

Nós conhecemos e temos o itinerário da catequese, definido pela Conferência Episcopal Portuguesa, em 10 anos. O que está previsto nesse programa é uma proposta de uma caminhada catecumenal, após o Batismo. Aquilo que temos experiência é que, independentemente da altura em que se celebram os sacramentos, a permanência na catequese não está dependente da celebração dos mesmos. Para uma maioria, estar na catequese ainda tem muito o peso dos sacramentos, e o percurso catequético acaba por ser visto apenas como uma preparação para os sacramentos e não como uma caminhada de crescimento, de vida cristã. Essa mentalidade ainda está presente. Independentemente da altura em que se celebram os sacramentos, há fatores importantes e determinantes que levam uma criança ou adolescente a afastar-se da catequese, nomeadamente o factor familiar. Se há uma família ou ambiente cristão, a criança ou adolescente está na catequese porque a ambiência cristã favorece a caminhada. Ao mesmo tempo, se há um importante envolvimento e experiência comunitária, isso também favorece aquilo que é a continuidade na catequese.

O que está a ser feito para evitar a ´debandada dos jovens’, como referiu o Papa Francisco aos Bispos portugueses, em especial após o percurso de 10 anos na catequese?

Uma das primeiras integrações dos jovens que são crismados é na experiência de eles próprios serem catequistas. Nós assistimos, nos últimos anos, a um florescimento dos catequistas jovens na nossa diocese. É uma proposta que em muitas paróquias acontece. No entanto, a nível daquilo que são os serviços diocesanos da pastoral juvenil e da catequese, penso que não tem sido feito muita coisa... contudo, há algumas notas importantes. A primeira é que os adolescentes participam em atividades do Serviço da Juventude. O que é bom. Já há uma integração e isso pode promover uma continuidade. Nas formações com os catequistas do 10º ano fizemos algumas reflexões sobre este problema. Foi um espaço de partilha, e a nossa ideia é continuar alguma reflexão, mas foi uma surpresa positiva porque descobrimos muitas paróquias com grupos de jovens e demos conta que onde há uma estabilidade formativa na paróquia os jovens permanecem. A questão está na proposta que nós temos para os jovens. Onde há propostas, há jovens! Faltam propostas formativas nas paróquias, alargadas à juventude. A experiência que eu tenho é que quando começamos a trabalhar com os jovens, as coisas acontecem.

Que ecos chegam dos catequistas na preparação do Sínodo Diocesano 2016?

Através das reuniões com os responsáveis paroquiais temos tido alguns ecos da forma como está a ser vivida, nas paróquias, a caminhada sinodal. Existem grupos compostos por catequistas e catequistas integrados em grupos paroquiais.

A nível do Sector da Catequese vamos propor, com base no capítulo V da Exortação Apostólica ‘A alegria do Evangelho’ que vai ser trabalhado no trimestre de janeiro a março de 2016, um trabalho sobre a identidade e a missão do catequista, de modo a preparar a assembleia diocesana dos catequistas, que vai decorrer no dia 17 de abril, em Torres Vedras. Para isso, será realizado um trabalho nas paróquias e vigararias, que constitui o contributo dos catequistas da diocese para o Sínodo Diocesano 2016.

Também no âmbito sinodal importa dizer que, a nível da catequese da adolescência, temos realizado alguns ensaios de missão, sobretudo relacionados com a ‘Festa da Vida’. Para os adolescentes do 8º ano, propusemos que cada grupo de catequese realizasse uma experiência missionária na sua comunidade. Este ano repetiremos a experiência, mas não apenas como grupo de catequese, mas num âmbito de missão familiar, desenvolvida pelas famílias de cada adolescente.

Como se pode ter, pela catequese, uma vivência da dimensão familiar, tantas vezes recordada pelo Papa Francisco?

Começo por referir o papel insubstituível dos pais na formação global dos filhos e a importância do testemunho dos pais na formação e educação da fé. A família como lugar de nascimento para a vida e para a fé. Isso é fundamental. De qualquer modo, é sempre uma preocupação da catequese a integração e colaboração das famílias e a necessidade de despertá-las para a sua função educativa. Historicamente, está presente na nossa mentalidade delegar a educação das crianças a uma entidade especializada, como se delegando um filho à catequese da paróquia bastasse para formar um homem cristão. Entender a catequese segundo o critério familiar pressupõe não só integrar as famílias na catequese paroquial mas tornar a família num lugar de Igreja. Isso tem sido trabalhado nos últimos tempos através de várias propostas concretas. Umas dizem respeito à formação cristã dos pais, outras com uma integração mais eclesial dos pais, no sentido de os convidarem a participar na catequese ou atividades paroquiais. Os catecismos atuais, sobretudo da infância, têm um espaço, em cada catequese, que se chama ‘em família’. É uma forma de os pais acompanharem aquilo que é a realidade vivida pelos filhos na catequese.

Quais os principais desafios para o Sector da Catequese?

Sobretudo, criar uma maior proximidade com os catequistas. Isso significa o despertar para a alegria e missão de ser catequista e daquilo que é um articular de práticas diversas, ou seja, chegar a uma articulação entre aquilo que vai mudando e vai tornando diferente a catequese. Depois, é sustentarmos um sistema de catequese mais ou menos secularizado, mas estarmos disponíveis para aquilo que vai nascendo e está em gestação na vida das paróquias e na vida das famílias.

 

Entrevista realizada pelo jornal VOZ DA VERDADE a 22.11.2015 e autorizada a republicação integral